Focagem de imagem

Brendan de Clercq | A sonhadora

Cada pessoa vê uma fotografia à sua maneira, mas quando conheces a história por trás dela, ela ganha um significado completamente diferente. Esta é a minha filha. Há cerca de quatro anos, foi diagnosticada com cancro no fígado. Está agora em fase de recuperação e a evoluir bem. A imagem foi captada em Amesterdão, durante um passeio fotográfico e, como sempre, a minha filha estava presente. Não houve qualquer direção na captação desta fotografia. Coloquei-a à frente de uma parede, num local movimentado, com pessoas a passar e a conversar à sua volta. Só lhe disse: “faz uma pose, pensa em alguma coisa, sê uma sonhadora”. Não queria colocar nenhum peso emocional sobre ela; procurava apenas captar aquilo que eu próprio estava a sentir naquele momento. O dia em que soubemos que ela tinha cancro no fígado, o nosso mundo desabou. É uma sensação avassaladora. Ficas completamente sem chão quando recebes uma notícia assim. Mas o mais impressionante é que, quando olhámos lá para fora, toda a gente continuava como se nada fosse. Essa é a parte mais desconcertante de uma notícia destas, o mundo lá fora segue o seu curso normal. As pessoas conversavam ao telemóvel, paradas junto aos semáforos, à espera de atravessar a estrada. Lembro-me de alguém a comer um hambúrguer e de outra pessoa a fumar um cigarro. Via pessoas levemente irritadas por nada, só pelo facto de terem de esperar que o semáforo ficasse verde. Situações absolutamente normais. E eu queria poder sentir isso, ter só uma preocupação banal, mas já nada disso interessava. E era isso que eu queria sentir e mostrar com esta fotografia. A imagem diz tudo. Ela permanece imóvel, em silêncio, a refletir sobre o futuro. E foi por isso que lhe dei o nome “A Sonhadora”, porque, numa situação destas, qualquer pessoa se transforma em sonhadora. Só consegues sonhar com as coisas positivas. Mas, para quem sonha, o futuro também pode parecer um pesadelo. Caminhas numa linha ténue entre o positivo e o negativo, como se fosses puxada em direções opostas.

uma mulher encostada a uma parede enquanto pessoas passam à sua frente © Brendan de Clercq | Sony RX1R III | 1/30s @ f/2.0, ISO 50

Captei a imagem com a compacta Sony RX1R III e a sua objetiva fixa de 35 mm f/2. A objetiva oferece uma magnífica profundidade de campo e o tamanho da câmara é essencial na fotografia de rua, porque não quero que as pessoas percebam que estou a fotografar. A resolução de 61 megapíxeis permite-me fazer recortes, mantendo sempre uma excelente qualidade de imagem. A decisão técnica fundamental foi fotografar a 1/30 s e f/2.0. A imagem não está completamente nítida, há um pouco de movimento, mas essa imperfeição funciona, porque toda esta história gira em torno da imperfeição. Se fosse demasiado nítida, demasiado limpa e perfeita, perderia a sensação que eu queria transmitir. Tenho um orgulho enorme na minha filha, na força dela, na forma como enfrenta a vida, em tudo o que a define e no seu lado de sonhadora. E é por isso que falar sobre esta fotografia me enche de orgulho.

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"Um dia farei o retrato perfeito. Um retrato com o máximo de emoção. É isso que me faz subir a fasquia da minha fotografia todos os dias"

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